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quinta-feira, 1 de abril de 2021

ARTIGO: Cidade exportadora de tecnologia

 

Flavio Marinho

Gerente executivo do SENAI CIMATEC, doutor em Modelagem Computacional e Tecnologias Industriais

 

A pandemia do COVID-19 tem nos revelado importantes contradições frente às transformações tecnológicas em curso. Seu entendimento contribui para a avaliação da atual situação econômica de Salvador e dos seus futuros possíveis.

A ameaça biológica e as medidas de restrição social intensificaram o consumo de serviços e conteúdos digitais, precipitaram mudanças de comportamentos e, consecutivamente, a aceleração da digitalização. Assim, se por um lado, o confinamento repercute na retração do consumo em negócios tradicionais, por outro, novas janelas descortinam-se para horizontes promissores.

Empresas soteropolitanas destacadas no setor digital têm observado grande crescimento ao longo da pandemia. Profissionais locais têm sido contratados para atuar remotamente para grandes atores globais, como Facebook e Apple. O SENAI CIMATEC fortaleceu sua posição diante dos desafios enfrentados para combater a pandemia e seus reflexos. Da mesma forma, tem feito a Fiocruz, grupos de pesquisa da UFBA e outras universidades, a Embrapa, entre outros institutos, que cresceram frente à necessidade da sociedade por soluções para tantos novos desafios a que temos sido apresentados.

A tecnologia - ou seja, o conhecimento técnico e científico aplicado a um campo particular – não deve ser confundida apenas com as Tecnologias da Informação e do Conhecimento (TIC). Ainda que estas sejam a principal mola propulsora na atualidade, outros campos, como a biotecnologia, as engenharias, a física e as ciências agrárias, são também fonte de potencial transformador.

Desenvolver novos produtos físicos ou digitais, equipamentos, ou prestar serviços utilizando-se de tecnologias diferenciadas é um caminho fértil para a agregação de valor e, por conseguinte, a geração de riquezas, empregos qualificados e o desenvolvimento sustentável.

Startups têm sido um dos atores importantes neste processo de transformação do mundo. Para elas, a riqueza cultural e artística soteropolitana pode ser um grande combustível criativo. Se associadas ao conhecimento acadêmico, novas empresas podem gerar ainda maior impacto. Adicionalmente, a região possui corporações de grande porte, inseridas em cadeias globais de valor, que podem alavancar nossos negócios nascentes para futuros promissores, atuando como Venture Clients. Setores como a química, petroquímica, energias renováveis, mineração, papel e celulose, construção civil, turismo, saúde, indústria criativa, entre outros, possuem fortes atores locais e podem caminhar conjuntamente com este movimento.

Aspectos naturais - como a beleza da Baia de Todos os Santos -, a qualidade de vida local, a diversidade cultural e aspectos logísticos podem atrair e reter ainda mais talentos. Porém é fundamental a adoção de políticas que invistam na formação compatível dos nossos jovens.

A depreciação do Real oferece vantagens temporárias para a prestação de serviços internacionais. Outras lacunas ainda precisam ser superadas para que este futuro seja duradouro.

Se, no passado, diante da falta de oportunidades, fomos exportadores de talentos e de empresas para outros estados e países, hoje, a virtualização das relações profissionais e a ampliação da busca por novas tecnologias pode nos permitir transformar a primeira capital do Brasil em uma importante cidade exportadora de tecnologias.

 

*Artigo publicado em 29.03.2021, na edição especial comemorativa do Aniversário de Salvador do Jornal Correio.