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sexta-feira, 12 de julho de 2019

ENTREVISTA JOSÉ MOTTA FILHO: "Para transformar a educação, professores e alunos precisam mudar a postura em sala de aula"

 

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Engenheiro civil de formação, José Motta Filho, consultor especialista em Metodologias Ativas de Ensino, percebeu que algo andava errado quando suas brilhantes aulas não conseguiam despertar o interesse dos alunos, apesar de todo o investimento e aprimoramento profissional que empenhava. Felizmente, abriu os olhos a tempo de procurar entender o que estava acontecendo ao seu redor e quando quase decidiu abandonar a docência, descobriu que o mundo da tecnologia estava abrindo possibilidades que ele jamais imaginara para a educação. Mergulhou de tal forma nesta aventura que acabou tornando-se consultor especialista em Metodologias Ativas, palestrante, pesquisador e entusiasta em Tecnologias Educacionais, como descrito no seu currículo. Líder de startups que promovem e utilizam Realidade Virtual, Inteligência Artificial, Big Data, Gamification e Adaptative Learning na Educação, ele esteve em Salvador no dia 11 de julho para dar palestra e desenvolver oficinas para docentes do SENAI Bahia usando novas tecnologias, durante o Encontro Pedagógico anual da instituição. Após uma palestra que capturou a atenção dos participantes, Motta concedeu esta entrevista, na qual fala dos desafios para inovar em educação, mostrando que, sim, é possível fazer mais para tornar a sala de aula mais interessante para professores e alunos. 

 

 

Qual é o desafio, na sua avaliação, para o professor aprender a lidar com o uso de novas tecnologias adaptadas à sala de aula?

O tema da educação 4.0 envolve alguns ingredientes: o primeiro deles é o professor deixar de ser o ator principal em sala de aula. O protagonista tem que ser o aluno. E o professor precisa dominar novas estratégias de ensino, aliadas a aquilo que ele já faz bem como professor dito tradicional, que usa bastante o quadro negro, slides power point, mas sem quase nenhuma interação como aluno. educação 4.0 é um misto do professor que se coloca na posição de mediador, com o aluno que deixa de ter uma postura passiva. Por isso chamamos isso de metodologias ativas de aprendizagem para conectar o aluno com o professor você precisa usar os recursos tecnológicos. Quando o professor começa a adotar este tipo de estratégia, onde ele não é mais o centro das atenções e o aluno é mediado por tecnologia – porque tecnologia é sempre meio da educação e nunca fim – nós temos observado em muitos lugares do mundo e aqui no Brasil, maior sucesso em resultados educacionais. Só que não é fácil para o professor mudar sua prática – isso é um pouco demorado, incômodo, porque o professor está acostumado a um jeito, a um ritmo de aula. Mas ao mesmo tempo, ele pode estar infeliz, porque a turma não rende

 

Como construir este caminho, então?

O professor tem que abrir um pouquinho a cabeça, começar a trazer estes ingredientes para sala de aula, conhecer novas tecnologias. Esse aprendizado deve acontecer naturalmente.

  

Como entender esse aluno altamente conectado e familiarizado com novas tecnologias?

Se a agenda da escola e se o cronograma da escola permite, o ideal é que este professor dê um jeito nas suas aulas de conhecer os alunos individualmente. Só assim ele poderá propor trilhas personalizadas de aprendizagem, o chamado adaptative learning, que é o aprendizado adaptativo. Nenhum professor vai começar um ano letivo já impondo atividades com metodologias ativas de ensino ou com muita tecnologia. Ele tem que conhecer minimamente a turma, o perfil dos alunos e ir propondo atividades, testando, até acertar. Esse conhecimento é importante. Isso não acontece de forma imediata. Mas o professor que consegue a cada semana conversar com alunos de forma individualizada ou em pequenos grupos, para entender a cabeça deles e suas expectativas, tem boas perspectivas. Muitas empresas de sucesso e serviços no mundo ouvem seus clientes para acertar melhor o que entregar a eles. E nós, muitas vezes, na educação, não ouvimos os alunos para tentar acertar e melhorar as nossas aulas. Muitas vezes nós apresentamos o que achamos que é bom pra ele. E é aí que está a grande dificuldade.

 

O aluno também está aprendendo neste novo contexto...

Sim o aluno precisa sair do lugar de passividade e acontece, em escolas particulares, ter alunos que se posicionam da seguinte forma: ‘minha família está pagando a mensalidade e o professor tem que ir lá dar aula’. Só que o professor dar uma boa aula não significa que o aluno irá aprender. Quando tem essa virada de chave do aluno, quando ele entender que se participar mais, vai aprender mais, será melhor pra ele, em vz de ficar esperando conteúdo de única via. 

 

Você foi um professor tradicional e teve que mudar seus conceitos. Como foi esta virada?

Em um determinado momento este professor tradicional não dava mais certo. Eu chegava em casa triste, até repensando em continuar professor. Se não tivesse dado esta virada de buscar algo novo, seria bem provável que eu já tivesse saído de um cenário mais amplo de educação.

 

E como foi essa virada?

Fui ler muito, sozinho. Fui fazer novos cursos, para poder me atualizar. Às vezes, a gente tem uma mania estranha de achar que a gente chegou num determinado ponto das nossas aulas e que já está bom, só que o mundo é muito dinâmico e o professor precisa investir na sua formação. E eu fiz e ainda faço muito isso. E quando eu arrisquei usar algumas dessas novidades em sala de aula, fui colhendo resultados em nota e performance dos alunos. Quando eu percebi que isso não era lorota e que realmente era possível fazer isso em sala de aula me tornei um professor mais feliz, os alunos começaram a render mais e deu tão certo que hoje eu tenho uma demanda muito grande no Brasil, de instituições que me chamam para contar o que você fiz e fazer oficinas para professores.

 

Como desenvolver novas competências que a educação 4.0 requer?

Ao implantar em sala de aula uma aprendizagem mais colaborativa dos alunos, o professor consegue desenvolver as competências socioemocionais. Numa aula unicamente expositiva, com os alunos passivamente ouvindo, muitos até aprendem, mas não desenvolvem o poder de argumentação e o trabalho em equipe. 

Você demonstra ter muita esperança na educação...

No nosso país, temos instituições que já compreenderam que o mundo mudou e que é preciso fazer algo, só que eu vejo que são ações isoladas. É possível com a verba que temos – de 6% do nosso PIB –, se for destinada de forma correta para os estados investirem um pouco mais na formação do professor, com mais prática, e também na infraestrutura da escola, a gente pode fazer muita coisa legal. 

 

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